Solidão no consultório: com quem o médico conversa sobre o próprio trabalho?
Você atendeu quinze pessoas hoje. Ouviu medo, raiva, luto, um filho que não liga, uma dúvida sobre o exame. Na hora de ir embora, quem perguntou como foi o seu dia? A gente acredita que esta é uma das explicações mais ignoradas para o cansaço de muitos colegas: a solidão no consultório, que convive com a agenda lotada e com a sala de espera cheia.
Cheio de gente e sozinho
Parece contraditório, mas faz sentido. O consultório é um lugar de muita conversa e de pouquíssima troca. O médico fala com pacientes, secretária, convênios e representantes, mas o assunto é sempre o do outro. Quando surge uma dúvida sobre uma conduta, um erro que ficou na cabeça ou um paciente que o abalou, quem está ali para ouvir?
Na residência e na faculdade, a coisa era diferente. Havia corredor, plantão compartilhado, café depois da visita. A prática independente tira essas conversas do dia sem avisar. O médico que atende sozinho, ou que divide a sala com colegas de outra especialidade, passa semanas sem discutir um caso de verdade.
O que se perde quando ninguém escuta
Perde-se, em primeiro lugar, a segunda opinião informal. Muita decisão difícil melhora quando dita em voz alta para alguém que conhece o assunto. Perde-se também o termômetro: sem conversar com ninguém, o médico não sabe se o que sente é normal para a profissão ou só dele.
E perde-se o espaço para elaborar as perdas e os erros. Um óbito, uma complicação, uma queixa no conselho. Esses momentos se acumulam e, se ninguém os ouve, ficam. Não estamos diagnosticando ninguém, e solidão não é doença. Mas ela pesa, e pesa mais em quem já está cansado.
Onde começar a conversar
A boa notícia é que não precisa ser nada formal. Algumas ideias que funcionam para muita gente:
- Um café mensal com dois ou três colegas de confiança, com regra simples: casos reais, sem identificar pacientes.
- Um grupo pequeno de mensagens com colegas da mesma área, para dúvidas rápidas, desde que ninguém circule dados que identifiquem pacientes, em respeito à LGPD (Lei 13.709/2018) e ao sigilo médico.
- Reuniões de casos clínicos na especialidade, presenciais ou on-line.
- Contato com quem foi seu preceptor ou colega de residência, que ainda entende a sua linguagem.
Um cuidado importante: grupos grandes de WhatsApp com muita gente costumam virar lugar de opinião rápida e disputa, não de apoio. Para conversa de verdade, vale o grupo pequeno, em que todo mundo se conhece.
Um detalhe que faz diferença: combinem desde o início que a conversa é para ouvir e pensar junto, não para dar solução pronta. Quem desabafa sobre um caso difícil raramente precisa de um protocolo. Precisa que o colega diga "já passei por algo parecido" e fique ali por alguns minutos. Essa regra simples separa o grupo que sustenta o médico do grupo que só troca opinião.
Quando já não é só solidão
Há uma diferença entre sentir falta de conversa e sentir-se esvaziado, sem motivação, sem prazer no que antes dava gosto. Se isso persiste por semanas, atrapalha o sono, a alimentação ou o relacionamento com a família, procure um psicólogo ou psiquiatra. Os conselhos regionais e as sociedades médicas costumam ter canais de acolhimento ao médico, e vale perguntar à sua entidade como acessar o serviço. Se algum dia você pensar em se machucar, procure ajuda imediatamente em um serviço de urgência ou com alguém de confiança.
Pedir ajuda sendo médico é difícil porque a profissão ensina a ser quem ajuda. A gente acha que o primeiro passo é tratar a si mesmo com a mesma consideração que dedicaria a um colega.
Para esta semana
Pense em duas pessoas da profissão com quem você gostaria de conversar sobre o trabalho e mande uma mensagem curta para cada uma, propondo um café nos próximos quinze dias. Sem pauta, sem projeto, apenas conversa.