Médico também é paciente: a dificuldade de cuidar da própria saúde
Você sabe exatamente o que diria a um paciente com o seu sintoma. Mesmo assim, adia a consulta, toma algo por conta própria e promete que na semana que vem marca. Cuidar da própria saúde é, para muito médico, a tarefa mais antiga da lista de pendências.
Por que a gente demora
Há razões que se repetem. A primeira é a agenda: o seu horário é o último a ser protegido, e o dia sempre tem alguém esperando. A segunda é o conhecimento, que atrapalha de um jeito curioso. Quem sabe muito acha que consegue se avaliar, minimiza o que sente ou imagina cenários piores do que o necessário e prefere não olhar. A terceira é o incômodo de virar paciente, de ficar do lado vulnerável da mesa, de contar a própria história para alguém que talvez seja colega.
Existe ainda uma crença silenciosa de que o médico não pode adoecer. Ninguém diz isso em voz alta, mas ela aparece na forma como a gente trata o próprio cansaço.
O risco da consulta de corredor
Muitos de nós resolvemos a saúde no corredor: uma pergunta rápida para um colega, uma receita pedida de favor, uma conversa informal em vez de avaliação de verdade. Isso tem um custo. A conversa sem exame e sem registro não substitui uma consulta, e o colega, por gentileza, tende a ser mais condescendente do que o necessário.
Da mesma forma, a gente acha que tratar a si mesmo, ou a quem é próximo demais, costuma dar errado, porque a distância necessária para decidir bem desaparece. Cada um sabe onde fica o limite da sua prática e das normas da profissão. Em caso de dúvida sobre o que é permitido ou prudente, o CFM e o conselho regional são o caminho para consultar.
Cuidar da própria saúde começa por ter um médico seu
A mudança mais simples é também a mais difícil: escolher um médico para você. Alguém que conheça seu histórico, que peça os exames certos na hora certa, que te trate como paciente e não como colega. Escolha com o mesmo critério que você usaria para indicar um colega à sua família: formação, confiança, jeito de conversar.
Marque as consultas de rotina e os exames de acordo com a orientação desse profissional, e trate esses horários como compromissos tão firmes quanto um paciente na agenda. A gente aconselha bloquear a agenda com antecedência, porque se for deixar para encaixar depois, não vai encaixar.
Quando o problema é o cansaço
A saúde do médico não é só física. Cansaço prolongado, irritação que não passa, perda de prazer nas coisas, sono ruim, dificuldade de se concentrar ou pensamentos de que não vale a pena continuar são sinais que merecem atenção profissional, e não força de vontade. A gente não diagnostica ninguém num texto, e tampouco quer assustar: queremos dizer que procurar ajuda é um ato de cuidado e de profissionalismo. Se alguma coisa aqui soou familiar, procure um profissional de saúde mental ou o seu médico de confiança. Se houver risco de se machucar, procure imediatamente um serviço de urgência ou alguém próximo.
Conversar com colegas de confiança também ajuda, especialmente porque muitas dessas experiências são compartilhadas e pouco faladas. Grupos de pares, quando existem, podem ser um espaço de troca. Eles não substituem tratamento, mas diminuem o isolamento.
O que muda na agenda
Proteger a própria saúde tem efeito no consultório. Atender cansado aumenta a chance de erro, deixa a conversa mais seca e torna o dia mais pesado para a equipe. Faltar por doença é pior do que sair uma tarde para uma consulta marcada. Pensando assim, cuidar de si deixa de parecer egoísmo e vira parte do trabalho bem feito.
Nesta semana, faça duas coisas: escolha o nome do médico que vai te acompanhar e ligue para marcar a consulta, mesmo que ela só aconteça daqui a algumas semanas. Depois bloqueie esse horário na sua agenda, com o mesmo cuidado que daria a um paciente que veio de longe.