Artigos / Tecnologia e IA com os pés no chão
Prontuário e IA: o que vale testar e o que exige cuidado
Prontuário e IA formam uma dupla tentadora, porque ninguém gosta de passar a noite digitando evolução. Mas, se uma ferramenta escreve o registro da consulta, de quem é a assinatura embaixo? Do médico. Essa resposta curta organiza quase tudo o que vem a seguir.
Prontuário e IA começam pela responsabilidade
O prontuário é um documento clínico e também legal. As normas do CFM sobre o assunto e o dever de sigilo valem do mesmo jeito, quem quer que tenha digitado o texto, e isso inclui um software. Se a ferramenta registrou algo que você não disse e você assinou sem ler, o erro é seu.
Por isso a nossa posição é simples: IA no prontuário pode ser rascunho, nunca registro final. A diferença está na leitura. Rascunho lido linha por linha é ajuda. Rascunho aceito no automático é risco, e muito mais difícil de perceber porque o texto sai limpo, organizado e convincente.
O que vale testar
Há usos de risco menor que merecem experimento, sempre com revisão completa antes de salvar:
- transformar um ditado seu em texto estruturado, com queixa, história, exame e conduta nos lugares certos;
- resumir um histórico longo em ordem cronológica, para você conferir contra o original;
- sugerir a redação de um relatório a partir de tópicos que você mesmo escreveu;
- corrigir ortografia e padronizar abreviações.
Em todos eles, quem decide o conteúdo é você, e a ferramenta mexe na forma. Quando ela começa a mexer no conteúdo, a conversa muda.
Comece com uma consulta simulada. Um colega faz o papel do paciente, com história inventada, e você roda o processo inteiro. Depois compare, linha a linha, o que foi dito com o que foi escrito. Aqui vai um exemplo inventado do tipo de falha que você procura: o paciente nunca foi perguntado sobre alergias, e o texto final registra "nega alergias". Parece um detalhe e é exatamente o tipo de erro que passa quando todo o resto está certo.
O que exige cuidado
Dado de saúde é dado pessoal sensível na LGPD (Lei 13.709/2018), com regras mais rígidas. Antes de levar um prontuário real para qualquer ferramenta, você precisa saber, por escrito: onde o áudio e o texto ficam guardados e por quanto tempo, se o fornecedor usa esse conteúdo para treinar os próprios modelos, como exportar e apagar tudo ao encerrar o contrato e quem, dentro da empresa, pode ter acesso.
Se não está escrito no contrato, trate como não resolvido. Um advogado ou o encarregado de dados da sua instituição é a pessoa certa para olhar isso. A gente não substitui essa conversa.
Resumos automáticos merecem uma atenção à parte. Quanto mais a ferramenta condensa, mais ela escolhe o que fica e o que sai, e quem escolhe o que sai é a máquina. Um histórico de vinte consultas reduzido a dez linhas pode perder justamente a observação que tornava o caso diferente. Use o resumo como índice e volte ao registro original quando algo importar.
Há ainda a questão do paciente. Gravar ou transcrever a consulta pede que ele saiba e concorde, de forma clara. Alguns pacientes aceitam sem problema, outros ficam constrangidos, e quem decide é ele, não a conveniência do consultório.
Um critério para decidir
Antes de adotar qualquer recurso, pergunte-se: se esta ferramenta errar, quem vai perceber, e quando? Se a resposta for "eu, na hora, ao ler", o risco é administrável. Se for "talvez ninguém, até aparecer um problema", fique na fase de teste. Na prática, o risco cresce quando a ferramenta resume muita informação em pouco texto, porque o que foi omitido some sem deixar rastro. E há o hábito antigo do copiar e colar entre consultas, que já produz registros duplicados e desatualizados; com IA, o problema só ganha escala.
Para esta semana
Peça ao fornecedor de qualquer ferramenta que você esteja considerando três respostas por escrito: onde os dados ficam, se são usados para treinar modelos e como apagá-los. Em paralelo, marque dez minutos com um colega para a consulta simulada. Se o fornecedor não responder com clareza, você já sabe o que fazer.