Artigos / Tecnologia e IA com os pés no chão
IA para escrever ao paciente: orientações em linguagem simples
Escrevemos "evitar sobrecarga" e achamos que explicamos em linguagem simples. O paciente lê aquilo e fica se perguntando se pode subir escada. Nós, médicos, somos péssimos em perceber quando o próprio texto virou código.
O problema não é falta de vontade
Ninguém escreve difícil de propósito. A gente absorveu o vocabulário da profissão tão bem que não o enxerga mais. Um exemplo inventado, só para mostrar o estilo:
Texto do médico: "Manter repouso relativo, evitar ortostatismo prolongado e elevar os membros durante o descanso."
Texto em linguagem simples: "Descanse, mas sem ficar de cama o dia inteiro. Evite ficar muito tempo parado em pé. Quando for descansar, deixe as pernas mais altas que o resto do corpo."
O segundo cabe numa mensagem, numa folha de orientação, e qualquer pessoa entende. Dá trabalho escrever assim, porque exige trocar cada termo técnico por uma imagem do cotidiano, e é justamente aí que a IA ajuda: ela é rápida em gerar alternativas, e você escolhe a que mantém o sentido.
Como usar a IA para chegar à linguagem simples
A divisão de tarefas é o ponto central. O conteúdo clínico é seu: o que fazer, o que evitar, quando voltar, quando procurar o pronto-socorro. A ferramenta cuida da forma. Na prática, funciona assim:
- você escreve a orientação do seu jeito, completa e correta;
- pede que a ferramenta reescreva para alguém com pouca escolaridade formal, com frases curtas e sem termos técnicos;
- pede também que ela liste as palavras que um leigo poderia não entender;
- compara o resultado com o original, ponto por ponto, para ver se algo mudou de sentido.
O último passo é o que importa. Simplificar é perigoso porque, ao simplificar, a ferramenta pode suavizar uma restrição ou trocar "evitar" por "tentar evitar". Uma diferença assim, em orientação pós-procedimento, altera o que a pessoa faz em casa. Tudo precisa de conferência, linha por linha, antes de ir para o paciente.
O que a IA não deve fazer aqui
Decidir o conteúdo. Personalizar a orientação usando dados de um paciente específico, pelo menos em ferramentas cujo destino dos dados você não conhece bem. Inventar sinais de alerta, que são decisão sua. A gente acha que material individualizado deve ser escrito ou, no mínimo, reescrito por quem atendeu aquela pessoa.
Outra armadilha é o tom. Texto de IA tende a sair gentil demais, cheio de "não se preocupe" e "fique tranquilo". Quando o caso pede atenção, esse tom atrapalha. Releia procurando frases que passam mais conforto do que o quadro justifica.
Teste com gente de verdade
O leitor final não é a ferramenta, é uma pessoa. Mostre o texto à recepcionista, a um familiar sem formação em saúde, a um paciente de confiança que topar ajudar. Pergunte: "o que você faria depois de ler isso?". Se a resposta se afastar do que você pretendia, o texto ainda não está pronto, seja ele de IA ou seu.
Se a folha for divulgada em site ou rede social, entra também a publicidade médica. Material educativo é bem-vindo, mas precisa respeitar a Resolução CFM 2.336/2023, sem promessa de resultado e sem apelo sensacionalista.
Para esta semana
Pegue a orientação que você mais repete, aquela que sai da sua boca vinte vezes por mês, e reescreva em linguagem simples com ajuda de uma ferramenta, sem colocar dado de paciente nenhum. Leia o resultado em voz alta. Se algum trecho soar diferente do que você diria, corrija. Guarde a versão final numa pasta que a recepção também acesse.
Se você quer treinar esse tipo de exercício com orientação, estamos preparando o Med+IA Hands On, um workshop presencial de 8 horas em Caxias do Sul, com 30 vagas, no sábado 28 de novembro.