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Mentoria entre colegas: o que os mais velhos podem passar

Equipe Med+IA3 min de leitura

Um residente pergunta ao cirurgião mais antigo do serviço por que ele sempre espera um minuto antes de dar uma notícia ruim à família. O mais velho responde sem pensar muito: "porque aprendi que a primeira frase define o resto da conversa". Essa resposta não está em livro nenhum. É o tipo de coisa que a mentoria entre colegas passa, e que se perde quando ninguém pergunta.

O que só se aprende com quem já errou

Livros ensinam conduta. Residência ensina técnica. O que sobra são julgamentos: quando operar e quando esperar, quando confiar no exame e quando confiar no incômodo do paciente, como falar com quem está com medo. Quem tem décadas de prática carrega um acervo disso, quase sempre não escrito.

A gente acha que o mais valioso que um colega experiente pode oferecer não são as respostas, e sim as histórias de erro. Um erro contado com honestidade economiza anos de tentativa. Só que contar erro exige um ambiente em que o outro não vai julgar, e é por isso que a mentoria depende de confiança antes de método.

Mentoria não precisa de programa

Muita gente imagina mentoria como algo formal, com contrato, reuniões marcadas e metas. Pode ser assim, mas para a maioria dos casos basta bem menos. Um café a cada dois meses. Uma ligação antes de uma decisão difícil. A permissão para assistir a uma consulta ou uma cirurgia, quando isso for possível e o paciente concordar.

O que ajuda é combinar o básico: sobre o que vamos conversar, com que frequência, e que o conteúdo é confidencial. Casos clínicos discutidos sem identificar o paciente, em respeito ao sigilo e à LGPD (Lei 13.709/2018). Pedir um prazo curto para testar e reavaliar também evita o desgaste de manter um encontro por obrigação.

Os riscos de aprender só com um modelo

Há um perigo discreto. O mentor passa o que funcionou para ele, num tempo e num mercado que talvez já não existam. Conselhos sobre agenda, preço, convênio e divulgação envelhecem rápido. Aquilo que era normal em publicidade médica há vinte anos hoje pode violar as regras do CFM, como a Resolução CFM 2.336/2023.

Por isso a gente sugere ouvir mais de um mentor, e conferir com um contador ou advogado o que tiver implicação fiscal ou legal. A pergunta útil ao ouvir um conselho é: isso é um princípio ou é um hábito dele? Princípios atravessam gerações. Hábitos, nem sempre.

Também vale lembrar que os mais velhos podem aprender com os mais novos. Ferramentas digitais, comunicação com pacientes jovens, novas formas de organizar a agenda. Uma mentoria em duas mãos costuma ser mais útil e menos hierárquica. O mais novo pode, por exemplo, mostrar como testar uma ferramenta de inteligência artificial para rascunhar mensagens administrativas, e o mais velho pode lembrar que o resultado exige conferência e que dados de paciente não entram nessas ferramentas.

Como pedir, e como oferecer

Quem quer um mentor costuma esperar ser escolhido. Na prática, quem faz o convite recebe resposta. Escolha alguém cuja prática você admira, faça um pedido específico e pequeno ("posso conversar com você por meia hora sobre como organiza a agenda?") e agradeça com franqueza depois.

Quem tem experiência pode fazer o inverso: notar um jovem colega com dificuldade e abrir a porta. Algumas frases simples ajudam, como "se quiser conversar sobre algum caso, me procura". Sem sermão e sem posição de superioridade.

A mentoria também protege quem ensina. Contar o que sabe organiza a memória, mantém o mentor atualizado e reduz a solidão de uma profissão em que muita coisa é decidida sozinho.

Para esta semana

Pense em um colega mais experiente cuja prática você admira e mande uma mensagem curta propondo meia hora de conversa sobre um tema específico. Se você é o mais experiente, escolha um jovem colega que atravessa uma fase difícil e ofereça um café, sem pauta. Registre, depois do encontro, uma única coisa aprendida.