O jovem médico: sai da faculdade sabendo medicina e quase nada sobre consultório
Pergunte a um colega recém-formado como se emite uma nota fiscal, como se negocia um repasse com uma clínica ou o que precisa constar num termo de consentimento. Muito provavelmente ele vai rir. O jovem médico chega ao mercado sabendo interpretar um eletrocardiograma e quase nada do que faz um consultório funcionar.
O que a faculdade ensina bem, e o que deixa de fora
A formação médica é intensa e, em geral, boa no que se propõe: raciocínio clínico, exame físico, conduta, cirurgia, urgência. Ninguém pode reclamar que falta conteúdo. O problema é que o currículo foi desenhado para formar quem trabalha em hospital, dentro de uma estrutura que já existe.
Na prática independente, a estrutura é você. Alguém precisa decidir o preço da consulta, o tempo de cada atendimento, a política de remarcação, o que dizer ao paciente que não tem dinheiro. Precisa entender de contrato com plano de saúde, de prontuário, de proteção de dados, de publicidade. Nada disso vem no histórico escolar.
Nossa opinião, e ela incomoda: não é culpa da faculdade, e não adianta esperar que ela resolva. A faculdade não consegue ensinar tudo, e o que falta é justamente o que cada cidade e cada especialidade faz de um jeito.
Cinco lacunas que aparecem cedo
Na conversa com recém-formados, e no que a gente mesmo viveu, algumas lacunas se repetem.
A primeira é a comunicação com o paciente fora da consulta: mensagens, ligações, avaliações. A segunda é o tempo: quanto dura uma consulta, como não atrasar a agenda inteira por causa de um caso difícil. A terceira é a relação com o dinheiro, que o jovem médico tem vergonha de falar. A quarta é o registro: prontuário bem feito, termo de consentimento, sigilo. A quinta é a publicidade, porque o mercado empurra o jovem a se mostrar nas redes e as regras do CFM, incluindo a Resolução CFM 2.336/2023, impõem limites claros.
Nenhuma delas é difícil de aprender. Todas ficam caras se aprendidas por erro.
Como aprender sem pagar o preço do erro
A primeira fonte são os médicos mais velhos que já passaram por isso. Perguntar a um colega com anos de consultório "como você faz?" rende mais que muita apostila. A segunda fonte são os profissionais de apoio: um contador que atende médicos, um advogado que conhece o direito médico, um bom administrador de clínica. Eles explicam o que precisa de assinatura e o que pode esperar.
A terceira fonte são as ferramentas, com cuidado. Um assistente de inteligência artificial como o Claude pode ajudar a organizar um roteiro de atendimento, a redigir uma mensagem de confirmação de consulta ou a explicar um conceito administrativo em linguagem simples. Mas tudo o que ele produz precisa de conferência, não substitui contador nem advogado e nunca deve receber dado identificável de paciente. Pense nele como um rascunho rápido, jamais como a decisão final.
O que os mais experientes podem fazer
O recado também é para quem já está há mais tempo no consultório. Receber um jovem colega para um café e contar o que deu errado ensina mais que dez palestras. Ninguém precisa montar um programa de mentoria. Basta responder com honestidade às perguntas que o recém-formado tem vergonha de fazer em público.
E vale uma observação em sentido contrário: o jovem médico também sabe coisas que o veterano não sabe, como lidar com ferramentas digitais, comunicação em rede, novos formatos de atendimento. A troca costuma ser boa para os dois lados, se ninguém assumir que só um deles tem algo a ensinar.
Para esta semana
Se você é jovem médico, escreva as três perguntas administrativas que mais o incomodam e leve a um colega mais experiente ou ao seu contador. Se você já tem anos de consultório, convide um recém-formado para um café e conte um erro de gestão que cometeu. O Med+IA Hands On, nosso workshop presencial de 8 horas em Caxias do Sul, com 30 vagas, no sábado 28 de novembro, é um lugar para quem quer discutir esses temas com colegas.