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O tempo do médico é o recurso mais caro e o menos medido

Equipe Med+IA3 min de leitura

Pergunte a um colega quanto gasta de material por mês e ele provavelmente responde de cabeça. Pergunte quantas horas por semana ele passa em tarefa administrativa e a resposta vem com uma pausa e um chute. O tempo do médico é o recurso mais caro do consultório e, curiosamente, o menos medido.

Por que a gente não mede

Tem uma razão cultural. Na formação, o tempo é uma coisa que se doa: plantão, residência, pós-plantão. Medir parece pouco generoso, quase mesquinho. Tem também uma razão prática: a maior parte do tempo gasto não está em blocos, está em pedaços. Cinco minutos para ler uma mensagem, dez para conferir uma guia, três para assinar papel. Pedaços não aparecem na agenda, e o que não aparece não é gerido.

O resultado é um dia que parece cheio sem que a gente consiga explicar de quê. Termina-se a semana cansado, com a sensação de ter trabalhado muito e feito pouco do que importava.

Três tempos que convém separar

Em vez de uma conta complicada, a gente propõe separar o dia em três tipos de tempo, só como lente de observação:

  • tempo com o paciente: consulta, procedimento, visita;
  • tempo de apoio direto: prontuário, receitas, laudos, retornos de exame, ligações sobre casos;
  • tempo de gestão e burocracia: convênio, guias, equipe, financeiro, mensagens administrativas.

Quase sempre a surpresa está na segunda e na terceira. O médico se vê como alguém que atende, mas boa parte da semana é dedicada a tarefas que ninguém chamaria de medicina. Algumas dessas tarefas só o médico pode fazer. Outras estão ali por inércia.

Como medir sem virar mais uma tarefa

Nada de aplicativo sofisticado nem planilha de hora em hora. Uma folha de papel no canto da mesa, com uma coluna para cada tipo de tempo, e uma marca a cada vez que você troca de atividade. Cinco dias bastam. O objetivo não é exatidão, é ordem de grandeza. Se no fim da semana você perceber que a coluna de gestão é maior do que imaginava, já ganhou a informação que faltava.

Outra forma é revisar a agenda com a secretaria, uma vez por mês, e perguntar onde o dia escapou: atrasos, encaixes, intervalos que viraram pendências. O olhar de quem fica na recepção costuma enxergar padrões que o médico, dentro da sala, não vê.

O que fazer depois de medir

Com os números aproximados na mão, a conversa muda. Pergunte o que só você pode fazer e o que poderia passar a outra pessoa, com treinamento e conferência. Veja o que pode ser padronizado, como textos de orientação ou modelos de documento, e o que pode ser agrupado em um horário fixo em vez de espalhado pelo dia. E pergunte, por último, o que pode simplesmente deixar de ser feito.

A última pergunta costuma ser a mais produtiva e a menos usada. Há relatórios que ninguém lê, controles duplicados e rotinas que persistem porque nunca foram questionadas.

Algumas dessas tarefas podem ser apoiadas por ferramentas, inclusive de inteligência artificial, como rascunhos de texto, organização de informação e modelos de documento. A gente tem cuidado com essa conversa: ferramentas erram, não conhecem o seu paciente e tudo o que produzem precisa de conferência sua. Dados de pacientes pedem atenção redobrada à LGPD (Lei 13.709/2018). Quem quiser experimentar isso com orientação, em um ambiente controlado, pode conhecer o Med+IA Hands On, workshop presencial de 8 horas em Caxias do Sul, com 30 vagas, no sábado 28 de novembro.

O tempo do médico também precisa sobrar

Há ainda uma conta que não entra em nenhuma planilha: o tempo que sobra para você. Estudar, descansar, ficar com a família. Esse tempo também faz parte do trabalho, porque um médico sem pausa atende pior e adoece mais. Se a medição mostrar que não sobra nada, não é falta de disciplina. É sinal de que a estrutura precisa mudar.

Esta semana, escolha dois dias e anote, numa folha simples, as trocas de atividade em três colunas. No fim, olhe só para uma pergunta: qual tarefa da segunda ou da terceira coluna eu faria diferente, ou não faria, se tivesse que escolher uma agora?